terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

cair de costas




  benjamin e o anjo de costas de klee que não quer cores mas claro&escuro cair de costas do ronald catástrofe mas queda e não movimento ou, não continuidade mas gesto o um só da queda, mas não deserção pois cai de costas: o percurso cronológico contrariado impõe outra questão (que é na origem que termina a queda como se, também nascido do chão, e indo para o futuro, também se revertesse a caída): o atingido de frente ou, no mínimo, o que quer continuar de frente para o mundo dos vivos (e de costas para o dos mortos), certa consciência da queda (a conferir, a determinar) de quem morre&continua no mundo, ainda que.
o nome? (em grego, o que particulariza, o que revela a característica).
sem ginga o quadril de pedra: outra música? poema, a moenda, musseque a terra vermelha, loanda, a lama dos casebres em que se amam, não, divergem, contrários, suados de favela (mexidos em pilão), também angola as bessanganas, estamos na deturpação social e histórica da áfrica, mas não, não isso, elementos como: tira a música óbvia e põe outra (como quem não pode cortar ao certo o pão, que não há, e faz isso com migalhas, farelos de chão), para terminar com o quase xingo-moleque, moleque, chamam assim, apesar.
a página me revolta, uso-a no mínimo, com meu(s) raro(s), não o seu, ainda que não se possa, dizer se o olho (palavra) vai dentro ou fora ou & (da opressão).
depois do nome o intervalo, no vá de va-lha, quase vazado, reticente porém, porejado&não em branco (que de branco já bastam os brancos, vários à mallarmé, hein?).
outro me fala (negro, pemba, avoengo) e o leio (quadro-nêgo) como quem em desfebrização escreve, não escravo, meu nome de tiros (vãos vários) picotado.
o dizer doce, o dizer dos doces, o dizer como os doces, os dizeres da doceira, os doces deserdados num além da mais-valia? (mas não, mas sim): comida dos outro, religião dos outro, opressão dos outro: sobra o emprego (oliveira) de negro (silveira) e ao mesmo tempo ditos os versos vindos da oposição, em postes opostos (a aposta-resposta do travo), ainda que o não seja ao fim o fim.
relendo o ronald ao longo do dia lento, de rastelo e espelho no colo.
nome de intervalo, o que o google olorum escolhe: o nenhum?, partes que não colam, polpa "sem prole" (umbra que a devore em vazio de onoma). mocama palavra no (embornal não há) mnemoseiro.
lamba o livro branco: lembra?, o dialeto eliot do waste lama?
palavras que dizem uma na outra, calam os nomes (saussure será o projeto do deserto?).
o intervalo, enfim, é um lugar malíssimo, de sangue coagulado por cola, de vala cubata por cova, daquilo que não falando (quase) em esmola, ainda&assim, assola.
o seu fetiche é a minha pele (onde o dentro penumbra): você me desenha, nomeia, explora: crioulo, otelo, king cole.
o riso gentili (que não se vende pela tez dos dentes) faculta o açoite - a cabra nos guizos - do mascote de circo: ele, o famigerado, esfarelado entre jogos frívolos de consortes (a conivência de sócios na compra&venda de sortes alheias) e isso mesmo nos supostos ótimos da raça: de um a outro, disse bolle, tentou-se o prumo do diálogo, mas só o do jagunço escolado, não o do entregue à própria cor. a prosa de ferpas entre veredas, não crispada mas como que articulada por molas (deserto é o de quem está fora, em sobrevoo, que no dentro só há paredes e é oco): vianda, vianda e um macaco pra janta de gentes gentilis.
não precisa de in-fans, sig-nans, nem é alguém: tem um branco na sombra e ganha como cabra de ganho, nem em sonho é aquele, ou nem é mais aquele (espécie de ele-nenhum, o que a câmera não capta). mesmo no poema não escapa.
calão (calar para que o nome venha de um não, à mão pesada)(sem artigo mesmo) de caserna (sem anistia ao carcereiro)(aquele com cheiro de bolge do florentino)(aquele do velho fascio no calabouço, pedindo aos campos um resgate institucional via cartinha ao embaixador) do barroco do mattos guerra (capanga de classe&raça, jabor dos seis centos). nomear os nomeadores (bardos sem borda, no à vontade do arbítrio), no contrapé, via tiros no esfíncter e prosa perturbada, saliva de sibila.
palavra, não bata na trave, fira o mero com cara de melro (de keats a eliot, carcereiros centauros da glote, um trote, ou nenhum): entretanto a medida é a mão, quem cava ou é cavado o sabe.
sacra a cura do broxa branco (saco de cancro, se tanto): ainda a sua pele, dentro, onde a sorte é certa, ventre, e a piada é pronta, preta.

digital art by Jason Engle

palavras de Ricardo Pedrosa Alves publicou os livros de poesia Desencantos mínimos (Iluminuras) e Barato (Medusa).
“Cair de costas” é título de um dos livros de Ronald Augusto. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

flor do lácio


centelha

o sonho invade a pele
rubor de metáforas
metafísica
metalinguagem
meta inexata
um aponte
uma ponta
uma ponte
:
a língua

sobre o iceberg nasce uma flor

***

flor do lácio

vou beijar a boca
do meu idioma
lamber a língua
da minha língua
fazer amor
com a flor do lácio





imagem: masaya kushino

palavras: Bianca Velloso nasceu gaúcha, em Porto Alegre; mas cresceu manezinha, na Ilha de Santa Catarina. Optometrista por profissão, mãe por opção, escritora por paixão. É também programadora da Rádio Comunitária Campeche, em parceria com Paulo Renato Venuto e Glauco Marques apresenta o “Sábado Arrastão”, um programa de entrevistas com foco em música e poesia.

sábado, 17 de janeiro de 2015

de eras, perfumada de lótus ...



Porque vamos morrer, os minutos da minha vida ficam mais intensos e eu levo tudo à sério como quem vai morrer a qualquer minuto e não levo nada a serio como quem pode morrer a qualquer minuto. Porque vamos mesmo morrer, eu quero morrer com cento e dez anos, que uma década a mais para quem já viveu um século faz muita falta sim. Porque vamos morrer, eu dou mais risadas do que o habitual e não me importo com o que dizem de mim, principalmente quando falam mal porque as pessoas falam mal de tudo, e é triste se elas ficam bem assim, com isso, e precisam menosprezar os outros para se glorificarem. Eu as glorifico mesmo sem precisar desprezá-las, porque vamos mesmo morrer. Cada coisa, por menor que seja toma uma dimensão infinita e quanto menor e mais simples for, maior e mais infinita se torna, porque a morte traz em si a essência da vida e porque sei da presença dela que tudo se ilumina, mas não faço questão de conhecê-la tão logo, mesmo porque ela já deu certeza que virá, e virá de surpresa. Porque vamos morrer, minha timidez torna-se um tesouro e seduz a todos e quanto mais quietinha eu ficar no meu canto, mais simpatia eu despertarei, que as pessoas terão curiosidade em conhecer e ficar amigas de uma pessoas tão calada e misteriosa como eu, com tanta consciência da vida quanto da morte, sua irmã siamesa. Porque vamos mesmo morrer, eu não tenho medo da morte, que morrer não dói. Morrer não dói. Porque vamos mesmo morrer eu quero mais é me enfeitar de lápis lázuli nos meus braços, pratas nos meus dedos, diamantes nas minhas orelhas, rubis nos meus pés, esmeraldas na minha cabeça e e turmalinas no meu pescoço que é só prá ver, sem precisar tocar. Porque vamos mesmo morrer, eu quero aprender a falar francês, japonês e chinês e passar pelo menos um ano em cada país que fala essa língua para poder me comunicar com as gentes e para que elas me entendam finalmente e que finalmente eu possa dizer que porque vamos mesmo morrer a vida deveria ser o inverso do que é e que a morte nos iguala a todos e quanto mais iguais formos, mais as nossas diferenças nos enriquecerão, e não estou falando em dinheiro. Porque vamos mesmo morrer, temos que entender o lugar da tristeza no mundo e saber ouvir os sambas que foram feitos em madrugadas frias de desolação e descontentamento e que se isso tudo produziu tanta beleza é porque uma coisa completa a outra e porque vamos mesmo morrer eu estou completa de vida e minha vida se completa de uma necessidade de mais vida todas as vezes que olho nos olhos do meu amor e que porque sei que ele também vai morrer eu não paro nunca de amá-lo e amá-lo e amá-lo. Porque vamos mesmo morrer, eu não me canso de colocar vidas no mundo e ensiná-las que é de vida que elas tem que se alimentar e gerar outras vidas até que habitemos os outros planetas de nosso sistema solar, e aos poucos, bem aos poucos que não tenho pressa de nada, outras galáxias, e finalmente outros universos, que duvido que só exista esse e muito menos que só nesse planeta tenha tanta vida e tanta vida diversa em suas cores, formas, cheiros, sabores e sons. Porque vamos mesmo morrer eu entendo o valor das coisas, e sei que a preguiça é necessária assim como o tédio, a depressão, a raiva e que tudo tem seu lugar e sua importância no mundo, e que dosando tudo, tudo fica como sempre foi – infinito. Porque vamos mesmo morrer eu quero subir a escada rolante que desce, cometer infrações de transito, experimentar toda a coleção de verão daquela loja que não vale o que cobra, viver a gloria do capitalismo e dizer que sim – eu amo a sociedade de consumo sem culpa! Mas que queria poder dividi-la, e dizer que todo brasileiro deveria ter direito a uma mansão com piscina, sauna, e outras frivolidades absolutamente necessárias. Quem vai me contrariar? Porque vamos mesmo morrer, eu quero morrer lúcida, no auge da minha alegria, e ser coroada de eras, perfumada de lótus e dormir nos braços cristalinos de Iemanjá!...  

imagem Joshua Hoffine's Horror Photographs

palavras Dionisio Neto  é ator, diretor e dramaturgo. Nascido em São Luís do MA, escreveu mais de 15 peças de teatro (Perpétua, Opus Profundum, Desembestai!, Desconhecidos, Antiga, entre outras. Atuou em longas (Carandiru), novelas (A Favorita, Morde e Assopra), comerciais.  

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

cadáver rosa-fúcsia-salmão





formigas perdem o sono de comida. da janela do carro observam os produtos metalizados com veda-tudo  e aerossóis anti-mofo.

nas texturas das paredes passeiam, a olhos vistos, os resíduos das suas matas carameladas de açúcares, whiskas sachê,  e uma farofa rica de ração humana.

enquanto brilham, formigas, entre formiga verde-musgo, há gatos brancos e malhados sobre e abaixo dum cadáver rosa em rosa-fúcsia-salmão.







palavras adriana zapparoli

imagem davide de agostini art 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Caballero andante




 Imagen Joel-Peter Witkin



Mientras el escudero y tres labriegos cargaban, por los llanos de Andalucía, el cadáver desnudo de Felixandro de Huelva, cayó de su penoso una gota de licor seminal. Nadie la vio, excepto un ejército de hormigas que fue transportando el líquido en sus propios cuerpos para compartir luego con toda la colonia. ¿Habrá logrado, Felixandro de Huelva, impregnar a la Reina?


***




Nacido en Buenos Aires, Argentina, y residente en Los Angeles, California, Pablo Baler es novelista, teórico y profesor de literatura latinoamericana y artes visuales en la Universidad Estatal de California en Los Angeles. Baler es también International Research Fellow del Centro de Investigación sobre el Arte de la Universidad de la Ciudad de Birmingham en el Reino Unido.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

para guardar na membrana do globo ocular



imagem Vania Zouravliov



(Do meu Livro de Travesseiro) Quanto a flores, o crisântemo dos cemitérios e altares budistas. O lótus branco que nasce na lama. A acácia que não tem perfume. O ipê que os imigrantes japoneses adotaram por saudade das cerejeiras. E a flor do capim.


*

Flash

Pela lente ele registra
o que ela foi e o que será
neste agora de dilemas
em sépia e preto & branco

(Ele sabe que ela não possui sombra)

Ela se deixa captar
em inúmeras imagens
que ele depois
vai destruindo

                            uma a uma

só para guardar na membrana do globo ocular
o que ninguém mais viu
                          ou verá

*


Leila Guenther publicou os livros de contos O voo noturno das galinhas (Ateliê Editorial, 2006), traduzido para o espanhol em 2010 (El vuelo nocturno de las gallinas, Peru, Borrador Editores), e Este lado para cima, (Sereia Ca(n)tadora, Revista Babel, 2011). Participou das antologias Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa (Garamond, 2006), Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte (Geração Editorial, 2008), 50 versões de amor e prazer: 50 contos eróticos por 13 autoras brasileiras (Geração Editorial, 2012) e Cusco, espejo de cosmografías: antología de relato iberoamericano (Ceques Editores, 2014). Foi selecionada no Programa Petrobras Cultural 2012 com o livro de poemas e haicais Viagem a um deserto interior e prepara um novo volume de contos.